Com proximidade do Natal, famílias ocupam ruas à espera de doações

Na calçada estreita que leva ao Cais de Santa Rita, no Centro do Recife, famílias esperam doações. Com a aproximação do Natal, ocupam as ruas em busca de cestas básicas, roupas, fraldas e dinheiro. Os grupos, que incluem crianças, se juntam àquelas pessoas que já vivem em situação de rua e dormem em colchões, papelão e cobertores. Os pedintes sazonais acampam em locais movimentados nos meses de novembro e dezembro.

A maioria são mulheres, que levam seus filhos e netos. Elas contam que não têm com quem deixar as crianças e precisam garantir o básico à sobrevivência. “Ninguém fica na rua porque quer. Precisamos de tudo. Nessa época as pessoas ficam mais solidárias. A gente se vira como pode”, conta uma jovem de 22 anos que prefere não se identificar. Com ela estão três crianças. O garoto mais novo tem um mês de vida. “Tem dia que a gente consegue R$ 20 no sinal. Já dá para comprar leite ou fraldas.”

Para Maria Lima, 18, os dias na rua não são muito diferentes daqueles dentro do barraco onde mora, na Ilha Joana Bezerra. Ao lado do sobrinho de 11 anos e do irmão de quatro anos, ela deixou a filha de seis meses com a mãe e saiu de casa em busca de doações. “Meu marido está na mesma situação. Às vezes consegue um bico, quando não está trabalhando no sinal, limpando vidros”, conta.

A miséria nas ruas durante a temporada natalina é o retrato concreto da desigualdade também constatada em dados. De acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano 2019, divulgado ontem, o Brasil perdeu uma posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), ficando em 79º entre 189 nações, com IDH de 0,761 em 2018. A dificuldade de avançar tem como um dos principais problemas a má distribuição de riqueza, já que quase 30% da renda total do país pertencem a 1% da população (leia mais na página B4).


Coordenador do Grupo de Trabalhos em Prevenção Posithivo (GTP+), Wladimir Cardoso destaca que a população vivendo nas ruas praticamente dobra no fim do ano. “A vulnerabilidade se expressa pela falta de efetividade de ações governamentais, como espaços de acolhimento e restaurantes populares”, comenta.

O frade Marcos Carvalho, da Pastoral do Povo na Rua, pontua que o período de festividade e confraternização estimula as ações solidárias. “A gente percebe a maior concentração também em outros bairros, como Madalena, Espinheiro e Boa Viagem. E essa visibilidade acaba motivando as doações. O próprio sentido do natal mobiliza porque a gente vê aquelas pessoas sem uma condição de vida digna em uma data em que se comemora o nascimento de Jesus, que chegou pobre ao mundo”, diz.

PARCEIROS TVLW-2021.gif