• Zilma Leite

Ciara Carvalho: A dor de Mirtes e o choro de Miguel


O mundo está gritando: Vidas negras importam.

Sabemos, cada um de nós, o quanto esse grito é urgente. E o quanto ele permanece diariamente, sistematicamente, estruturalmente ignorado. Mas uns sabem mais do que outros. Porque uns sofrem mais (muito mais) do que outros.


É um grito que não diz respeito só a George Floyd, o homem negro, norteamericano, friamente assassinado, enquanto suplicava: "Não consigo respirar."

Essa dor está aqui, tão forte, tão perto de nós.

Desde o primeiro momento, quando surgiu a notícia de que uma criança de 5 anos havia caído do 9º andar de um prédio, no Centro do Recife, meu coração foi ao chão. Imediatamente pensei na mãe dessa criança. Foi a primeira coisa que pensei.

Pois bem. A mãe dessa criança chama-se Mirtes Renata, mulher negra. Ela é empregada doméstica e estava passeando com o cachorro da patroa na rua, quando descobriu que a criança que havia caído do 9º andar era seu filho. Seu único filho. Miguel Otávio Santana da Silva estava com saudade da mãe e, naquele dia, pediu para ir com ela para o trabalho. Mirtes desceu para dar uma volta com o cachorro e deixou Miguel aos cuidados da patroa.

Nas palavras da polícia, a dona do apartamento "era a responsável legal pela guarda momentânea dele".


Nas palavras da polícia, as câmeras do circuito interno de segurança do condomínio mostraram o momento em que a mulher, que teve a identidade preservada, permite que Miguel entre sozinho no elevador. "Ela ainda aperta em um dos botões no alto no painel do equipamento", afirmou o delegado Ramón Teixeira, à fente das investigações.

O que aconteceu depois é de doer na alma. Miguel parou no 9º andar, desceu do elevador e, aparentemente procurando a mãe, terminou caindo de uma altura de 35 metros.


"Negligência", diz a polícia

A polícia não viu dolo na atitude da patroa de Mirtes. Classificou o fato de ela permitir que uma criança de 5 anos entrasse sozinha num elevador como "negligência". E anunciou que vai indiciar a mulher por homicídio culposo. O dolo, como se sabe, não é só quando se tem a intenção de matar. Mas quando se assume o risco de que uma determinada atitude pode terminar em morte. A patroa vai responder o inquérito em liberdade.


Por favor. Me ajudem a raciocinar. Façam um exercício de imaginação comigo.

Imaginem que a filha de 5 anos dessa patroa estivesse chorando, reclamando de algo ou chamando pela mãe, e a empregada permitissse que essa criança entrasse no elevador sozinha, e chegasse a apertar o botão para outros andares. Essa criança, perdida, saísse do elevador e, ao tentar caminhar, procurando a mãe, caísse de uma altura de 35 metros. Morresse com múltiplas fraturas no corpo.


Essa empregada negra seria indiciada por homicídio culposo?


Essa empregada negra responderia o processo em liberdade?


Vi hoje o vídeo, vocês também devem ter visto, com Gianna, a filha caçula de George Floyd, abrindo um clarão de luz em meio ao horror do racismo: "Papai mudou o mundo."

Gianna, porta-voz da esperança, tem 6 anos.

Um ano mais velha que Miguel, o filho de Mirtes.

* O nome da suspeita não foi divulgado pela Polícia Civil em cumprimento da Lei de Abuso de Autoridade nº 13.869/2019, que, entre outros pontos, proíbe a divulgação de imagens e nomes por parte dos policiais e servidores públicos membros dos Poderes Legislativo, Executivo, Judiciário e do Ministério Público. A pena é de até quatro anos de prisão, caso a autoridade descumpra a legislação.


Por: Ciara Carvalho/ JC Online